Anthem – tradução (incompleta)

Posted: May 21, 2011 in Uncategorized

Introdução do Autor

Esta história foi escrita em 1937.

Eu a revisei para publicação, mas a revisão se limitou a questões estilísticas; eu reescrevi algumas partes e cortei o desnecessário. Nenhuma ideia ou acontecimento foi adicionado ou omitido; o tema, o conteúdo e a estrutura se mantém intactos. A história se manteve como era. Levantei seu rosto, mas não sua coluna ou seu espírito; estes não precisaram ser levantados.

Alguns dos que leram a história logo quando foi escrita me disseram que ela era injusta com os ideais do coletivismo; isso não é, eles disseram, o que o coletivismo prega ou pretende; coletivistas não pretendem ou advogam tais coisas; ninguém as advoga.

Eu vou me limitar a demonstrar que o slogan “Produção para o uso e não para o lucro” é aceito pela maioria como um lugar-comum, e um lugar-comum declarando um objetivo respeitável e desejável. Se qualquer significado inteligível pode ser discernido neste slogan, qual seria, se não a ideia de que a motivação para o trabalho de um homem são as necessidades dos outros, não a sua própria necessidade, desejo e prosperidade?

Trabalho compulsório é praticado e advogado em todos os países da Terra. No que isso seria baseado, senão na ideia de que o Estado é o melhor qualificado para decidir como um homem pode ser útil a outros, sendo tal utilidade a única consideração, e que seus próprios objetivos, desejos ou felicidade devem ser ignorados como se não tivessem importância? Temos Conselhos de Vocação, Conselhos de Eugenia, todos os tipos de Conselho, inclusive um Conselho Mundial – e se eles não têm ainda poder total sobre nós, seria por não pretenderem isso?

Igualdade social”, “responsabilidade social” e “implicações sociais” se tornaram expressões corriqueiras da nossa linguagem. A necessidade de justificação social para todas as ações e para toda existência agora está consolidada. Não há proposta que seja suficientemente ultrajante e que não possa ser bem recebida se o autor disser de alguma forma que é pelo “bem comum”.

Alguns podem pensar – embora eu discorde – que há nove anos havia uma desculpa para não se ver a direção para a qual o mundo estava indo. Hoje, as evidências são tão óbvias que ninguém mais se pode dar uma desculpa. Aqueles que se recusam a ver agora não são nem cegos nem inocentes.

A maior culpa, hoje, cabe às pessoas que aceitam o coletivismo por ser uma imposição moral; às pessoas que procuram se proteger da necessidade de tomar uma postura, ao recusarem-se a admitir para si mesmas a natureza do que estão aceitando; às pessoas que apoiam planos especificamente para atingir a servidão, mas se escondem na asserção vazia de que são amantes da liberdade, sem qualquer significado concreto para a palavra; às pessoas que acreditam que o conteúdo das ideias não precisa ser examinado, que princípios não precisam ser definidos e que fatos podem ser eliminados fechando os olhos de alguém. Eles esperam, quando estão em um mundo de ruínas sangrentas e campos de concentração, escapar da responsabilidade moral choramingando: “Mas eu não queria isso!”.

Aqueles que querem a escravidão devem ter a elegância de chamá-la por seu nome adequado. Eles devem enfrentam o significado completo do que estão advogando ou condenando; o significado completo, exato e específico do coletivismo, suas implicações lógicas, os princípios nos quais isso se baseia e as consequências finais as quais tais princípios levarão.

Eles devem encarar isso, e depois decidir se é o que querem ou não. – Ayn Rand. Abril, 1949.

Capítulo I.

É um crime escrever isso. É um crime pensar em palavras que ninguém mais pensa e escrevê-las em um papel que ninguém mais pode ler. É desprezível e mau. É como se estivéssemos falando sozinhos, para nenhum ouvido senão os nossos próprios. E sabemos bem que não há transgressão mais perversa que pensar sozinho. Quebramos as leis. As leis que dizem que os homens não podem escrever até que o Conselho de Vocações lhes permita fazer isso. Que sejamos perdoados!

Mas esse não é o nosso único crime. Cometemos um pior, e para tal crime não há nome. Que punição nos espera se formos descobertos não sabemos, pois esse crime chegou na memória dos homens e não há leis que tomem providências em relação a ele.

Está escuro aqui. A chama da vela mantém-se inerte no ar. Nada se move no túnel, a não ser a nossa mão no papel. Estamos a sós aqui embaixo da terra. É uma palavra terrível, sozinho. As leis dizem que ninguém dentre os homens pode estar sozinho, nunca e em momento algum, pois essa é a maior transgressão e a raiz de todo o mal. Mas quebramos muitas leis. Agora não há nada aqui a não ser nosso corpo, e é estranho ver somente duas pernas esticadas no chão, e na parede em nossa frente somente a sombra da nossa cabeça.

As paredes estão rachadas e a água corre sobre elas em estreitos segmentos silenciosos, escuros e brilhantes como sangue. Roubamos a vela da despensa da Casa dos Varredores de Ruas. Receberemos uma sentença de dez anos no Palácio dos Castigos Corretivos se formos descobertos. Mas isso não importa. Tudo que importa é que a luz é preciosa e não devemos desperdiçá-la para escrever enquanto precisarmos dela para o trabalho que é nosso crime. Nada importa senão o trabalho, nosso secreto, perverso e precioso trabalho. Por outro lado, nós também precisamos escrever, pois – que o conselho tenha piedade de nós! – queremos falar pelo menos uma vez somente para os nossos próprios ouvidos.

Nosso nome é Igualdade 7-2521, como está no bracelete de ferro que todos os homens usam nos seus pulsos esquerdos com seus nomes inscritos. Temos vinte e um anos de idade. Temos um metro e oitenta de altura, e isso é um fardo, pois não há muitos homens com um metro e oitenta de altura. Muitas vezes, nossos Professores e Líderes apontaram para nós, franziram o rosto e disseram-nos: “Há maldade em seus ossos, Igualdade 7-2521, pois seu corpo cresceu mais do que o corpo de seus irmãos.” Mas não podemos mudar nossos ossos nem nosso corpo.

Nascemos com uma madição. Ela sempre nos trouxe pensamentos proibidos. Sempre nos deu desejos que muitos homens não têm. Sabemos que somos perversos, mas não há vontade ou poder em nós para resistir a isso. Este é nosso dom e nosso medo secreto, que nós conhecemos e a ele não resistimos.

Lutamos para ser como nossos irmãos, pois todos os homens devem ser iguais. Nos portões do Palácio do Conselho Mundial, há palavras esculpidas em mármore, que repetimos a nós mesmos sempre que caímos em tentação:

Somos um em todos e todos em um.

Não há homens, mas um único e grande NÓS

Um, indivisível e eterno.”

Repetimos isso a nós mesmos, mas não ajuda de forma alguma.

Essas palavras foram esculpidas há muito tempo. Há bolor verde nas bordas das letras e camadas amareladas no mármore, que estão lá há mais anos que os homens podem calcular. Essas palavras são a verdade, pois foram escritas no Conselho Mundial, e o Conselho Mundial é a encarnação da verdade. Tem sido assim desde o Grande Renascimento, e muito além do que qualquer memória possa alcançar.

Mas nunca devemos falar dos tempos antes do Grande Renascimento, ou receberemos uma sentença de três anos no Palácio dos Castigos Corretivos. Apenas os Velhos falam sobre eles, na Casa dos Inúteis. Eles sussurram muitas coisas estranhas, sobre torres que alcançavam o céu, nestes Tempos Imencionáveis, e de carros que se moviam sem cavalos, e de luzes que brilhavam sem chama. Mas tais tempos eram perversos. E esses tempos tiveram fim quando os homens viram a Grande Verdade, que é esta: todos os homens são um e não há vontade senão a vontade de todos os homens juntos.

Todos os homens são bons e sábios. Somente nós, Igualdade 7-2521, nós sozinhos nascemos com uma maldição. Afinal não somos como nossos irmãos. Quando olhamos para trás em nossa vida, vemos que sempre foi assim e que isso nos trouxe passo a passo até a nossa suprema transgressão, nossos crimes ocultos aqui no subsolo.

Lembramos-nos da Casa dos Infantes, na qual vivemos até os cinco anos de idade, junto a todas as crianças da Cidade que nasceram no mesmo ano. Os dormitórios eram brancos e limpos e não tinham nada além de umas cem camas. Éramos como todos os nossos irmãos, salvo por uma transgressão: brigamos com nossos irmãos. Há poucas ofensas piores que lutar com nossos irmãos, em qualquer idade e por qualquer causa. O Conselho da nos disse isso, e a todas as crianças daquele ano, e éramos trancados no sótão com frequência.

Quando tínhamos cinco anos de idade, fomos enviados para a Casa dos Estudantes, onde há dez alas, para os nossos dez anos de aprendizado. Os homens devem estudar até alcançar o quinze anos de idade. Depois vão trabalhar. Na Casa dos Estudantes nos levantávamos quando o grande sino soava na torre e voltávamos para a cama quando ele soava novamente. Antes de nos despirmos para dormir, púnhamos-nos de pé no grande dormitório, levantávamos nossas mãos direitas e dizíamos todos juntos com os três Professores-chefe:

Nada somos. A humanidade é tudo. Pela graça dos nossos irmãos temos a permissão para viver. Existimos, por e para os nossos irmãos que estão no Estado. Amém.”

Então dormíamos. Os dormitórios eram brancos e limpos e não tinham nada além de umas cem camas.

Nós, Igualdade 7-2521, não éramos felizes nesses tempos na Casa dos Estudantes. Não é que aprender fosse difícil. Aprender era a coisa mais fácil. É um grande crime nascer com uma cabeça que trabalha muito rápido. Não é bom ser diferente de nossos irmãos, e é mau ser superior a eles. Os Professores nos disseram isso, e eles franziram o rosto enquanto olhavam para nós.

Então lutamos contra essa maldição. Tentamos esquecer nossas lições, mas sempre nos lembrávamos. Tentávamos não entender o que os Professores ensinavam, mas sempre as entendíamos antes de eles falarem. Nós olhávamos para União 5-3992, que eram um menino pálido com apenas meio cérebro, e nós tentávamos falar e agir como eles, ser como eles, como União 5-3992, mas de alguma forma os professores sabiam que nós não éramos assim. Então éramos açoitado com maior frequência que todas as outras crianças.

Os professores eram justos, pois tinham sido apontados pelos Conselhos, e os Conselhos são a voz de toda a justiça, pois são a voz de todos os homens. E se algumas vezes, na escuridão secreta de nosso coração, nos arrependemos do que nos sobreveio em nosso décimo quinto aniversário, nós sabíamos que tinha sido nossa culpa. Nós quebramos a lei, pois não prestamos atenção às palavras dos Professores. Os Professores nos disseram:

Não ousem escolher em suas mentes o trabalho que vocês gostariam de ter quando saírem da Casa dos Estudantes. Vocês vão fazer o que o Conselho de Vocações determinar para vocês. O Conselho de Vocações tem muito maior sabedoria sobre onde os seus irmãos mais precisam de vocês, melhor do que vocês podem conceber em suas mentezinhas indignas. E se os seus irmãos não precisarem de vocês, não há necessidade de ter perturbar o mundo com sua existência.”

Sabíamos bem disso, nos tempos de nossa infância, mas nossa maldição libertou nossa vontade. Éramos culpados e confessamos aqui: éramos culpados da grande Transgressão de Preferência. Preferíamos alguns trabalhos e lições a outros. Não ouvíamos bem a história dos Conselhos eleitos desde o Grande Renascimento. Mas amávamos Ciência das Coisas. Nós queríamos saber. E queríamos saber sobre as coisas que compõem a Terra ao nosso redor. Fizemos tantos perguntas que os Professores nos proibiram de perguntar.

Achamos que há mistérios no céu e sob a água e nas plantas que crescem. Mas o Conselho dos Estudiosos disse que não há mistérios, e que o Conselho dos Estudiosos sabe de tudo. Aprendemos muito com nossos Professores. Aprendemos que a Terra é plana e que o Sol gira ao seu redor, causando os dias e as noites. Aprendemos os nomes dos ventos que sopram nos mares e impulsionam as velas dos grandes navios. Aprendemos a fazer sangrias nos homens para curar suas doenças.

Amávamos Ciência das Coisas. E na escuridão, na hora secreta, quando acordávamos à noite e não havia qualquer irmão perto de nós, mas apenas suas silhuetas nas camas e os seus roncos, fechávamos nossos olhos, cerrávamos bem os lábios e parávamos de respirar, para que nada deixasse nossos irmãos ver, ouvir ou adivinhar, que pensávamos que queríamos ser enviados para a Casa dos Estudiosos quando fosse nossa hora.

Todas as invenções modernas vieram da Casa dos Estudiosos, tais como a mais nova de todas, descoberta há apenas cem anos, de fazer velas de cera e barbante; e também como fazer vidro, que colocamos em nossas janelas para nos proteger da chuva. Para descobrir essas coisas, os Estudiosos devem estudar a Terra e aprender sobre os rios, as areias, os ventos e as pedras. Se fôssemos para a Casa dos Estudiosos, poderíamos aprender isso também. Poderíamos perguntar o que quiséssemos, pois a eles não é proibido perguntar.

E perguntas não nos dão descanso. Não sabemos por que nossa maldição nos faz buscar algo que nem sabemos o que é, cada vez mais e mais. Mas não podemos resistir. Ela sussurra para nós que há coisas grandiosas no nosso mundo, e que nós podemos conhecê-las se nos esforçarmos, e que nós devemos conhecê-las. Nós perguntamos por que precisamos conhecer, mas não recebemos qualquer resposta. Nós devemos saber que nós devemos saber.

Então desejávamos ser enviados para a Casa dos Estudiosos. Desejávamos tanto que nossas mãos tremiam embaixo dos lençóis à noite, e nós mordíamos nosso braço para parar essa outra dor que não conseguíamos suportar. Era mau e não ousávamos encarar nossos irmãos pela manhã. Afinal, homens não podem desejar nada para eles mesmos. E fomos castigados quando o Conselho de Vocações veio nos dar nossos Mandatos Vitalícios, que dizem a aqueles que alcançam o seu décimo-quinto ano qual será seu trabalho até o último de seus dias.

O Conselho de Vocações veio no primeiro dia da primavera, e eles se sentaram no grande salão. E nós que tínhamos quinze anos e todos os professores entraram no grande salão. E o Conselho de Vocações se sentava sobre um grande estrado, e eles tinham duas palavras para falar a cada um dos Estudantes. Eles chamavam os nomes dos Estudantes, e quando os Estudantes se postavam diante deles, um após o outro, o Conselho dizia: “Carpinteiro” ou “Médico” ou “Cozinheiro” ou “Líder”. E cada Estudante levantava a sua mão direita e dizia: “Que seja feita a vontade de nossos irmãos.”

Se o conselho dissesse “Carpinteiro” ou “Cozinheiro”, os Estudantes eram atribuídos a ir trabalhar e não estudavam mais. Mas se o Conselho dissesse “Líder”, então os Estudantes iam para a Casa dos Líderes, que é a maior da Cidade, pois tem três histórias. E lá eles estudam por muitos anos, até se tornarem candidatos e serem eleitos para o Conselho Municipal e para o Conselho Estadual e para o Conselho Mundial – por voto livre e geral de todos os homens. Mas não queríamos ser um Líder, mesmo que isso fosse uma grande honra. Queríamos ser um Estudioso.

Então esperamos a nossa vez no grande salão e então ouvimos o Conselho de Vocações chamar o nosso nome: “Igualdade 7-2521”. Caminhamos até o estrado, e nossas pernas não tremeram, e nós olhamos para o Conselho. Havia cinco membros no Conselho. Três eram do gênero masculino e dois eram do gênero feminino. Seus cabelos eram alvos e seus rostos tinham tantas fendas quanto a barro de um leito fluvial seco. Eles eram velhos. Pareciam mais velhos que o mármore do Templo do Conselho Mundial. Eles se sentavam diante de nós e não se moviam. E não vimos qualquer sopro agitar as dobras de suas togas brancas. Mas sabíamos que estavam vivos, pois um dedo da mão do mais velho se levantou, apontou para nós, e se abaixou novamente. E foi a única coisa que se moveu, pois os lábios do ancião não se moveram quando eles disseram “Varredor de Ruas”.

Sentimos um aperto na gargante quando nossa cabeça se levantou e vimos os rostos do Conselho, e estávamos felizes. Nós sabíamos que éramos culpados, mas agora tínhamos uma forma de reparar isso. Aceitaríamos nosso Mandato Vitalício, e iríamos trabalhar para nossos irmãos, alegremente e de bom grado, e eles apagariam nosso pecado contra eles, que eles não sabiam, mas nós sabíamos. Então estávamos felizes e orgulhosos por nós mesmos e pela nossa vitória sobre nós. Levantamos nossa mão direita e falamos, e nossa voz foi a mais clara e mais firme do salão naquele dia, e nós dissemos:

Que seja feita a vontade de nossos irmãos.”

Olhamos fundo nos olhos do Conselho, mas seus olhos eram como frios botões azuis.

Então fomos para a Casa dos Varredores de Ruas. É uma cinza em uma rua estreita. Há um relógio solar no seu pátio, através do qual o Conselho da pode saber as horas do dia e a hora certa de tocar o sino. Quando o sino toca, todos nos levantamos. O céu está verde e frio nas nossas janelas para o leste. A sombra no relógio marca meia hora para nos vestimos e comermos nosso café-da-manhã no refeitório, onde há cinco longas mesas com bandejas de barro e vinte copos de barro em cada mesa. Depois vamos trabalhar nas ruas da Cidade, com nossas vassouras e nossos ancinhos. Após cinco horas, quando o sol está alto, voltamos para a e comemos nossa refeição do meio-dia, para o qual só temos uma hora. Então vamos trabalhar de novo. Após cinco horas, as sombras são azuis no asfalto, e o céu está azul com um brilho profundo que não é brilhante. Então voltamos para o jantar, que dura uma hora. Então o sino toca e nós caminhamos em fila para um Salão Municipal, para o Encontro Social. Outras filas de homens chegam de s de diferentes Ofícios. As velas são acesas, e os conselhos das diferentes s ficam em um púlpito, e eles nos dizem os nossos deveres e os deveres dos nossos irmãos. Então os Líderes sobem ao púlpito e leem discursos que eles fizeram no Conselho Municipal naquele dia, pois o Conselho Municipal representa todos os homens e todos os homens devem saber. Então cantamos hinos, o Hino da Irmandade, o Hino da Igualdade e o Hino do Espírito Coletivo. O céu é um roxo saturado quando voltamos para nossa Casa. Então o sino toca e andamos em fila até o Teatro Municipal para três horas de Recreação Social. Uma peça é exibida no palco, com dois ótimos corais da Casa dos Atores, que falam e respondem todos juntos, em duas ótimas vozes. As peças são sobre o trabalho e sobre como ele é bom. Então voltamos para a Casa em fila. O céu é uma peneira negra perfurada por gotas prateadas que tremem, prontas para irromper. As mariposas se batem nas lanternas das ruas. Vamos para nossas camas e dormimos, até o sino tocar novamente. Os dormitórios eram brancos e limpos e não tinham nada além de umas cem camas.

E foi assim que vivemos cada dia nos quatro anos seguintes, até que nosso crime aconteceu há duas primaveras. É assim que os homens devem viver até os quarenta anos. Aos quarenta, eles estão desgastados. Aos quarenta, são enviados para a Casa dos Inúteis, onde os Velhos vivem. Os Velhos não trabalham, pois o Estado toma conta deles. Eles se sentam sob o sol no verão e se sentam próximos à lareira no inverno. Eles não falam muito, pois estão desgastados. Os Velhos sabem que morrerão logo. Quando acontece algum milagre e eles vivem mais que quarenta e cinco anos, eles são chamados Anciões, e as crianças olham para eles quando passam pela Casa dos Inúteis. Esta tem de ser nossa viada, assim como a de todos os nossos irmãos e dos irmãos que nos antecederam.

E assim teria sido a nossa vida, se não tivéssemos cometido o nosso crime que nos modificou completamente. E foi nossa maldição que nos levou ao crime. Tínhamos sido bons Varredores de Ruas, e iguais a todos os nossos irmãos Varredores de Ruas, exceto pelo nosso desejo maldito de conhecer. Olhávamos por muito tempo as estrelas à noite, e as árvores e a terra. E quando limpávamos o quintal da Casa dos Estudiosos, coletávamos frascos de vidro, pedaços de metal e ossos secos que eles jogavam fora. Queríamos ficar com essas coisas e estudá-las, mas não tínhamos onde esconder. Então as levamos para a Cisterna Municipal. Então fizemos nossa descoberta.

Foi em um dia na primavera antes desta última. Nós Varredores de Ruas trabalhamos em brigadas de três, e estávamos com União 5-3992, o do meio-cérebro, e com Internacional 4-8818. Agora União 5-3992 era um garoto doente e às vezes era acometido por convulsões, quando sua boca espumava e seus olhos ficavam brancos. Mas Internaciol 4-881 eram diferente. Eles são um jovem alto e forte, e seus olhos são como vaga-lumes, pois há risos em seus olhos. Não podemos olhar para Internacional 4-8818 sem sorrir de volta. Mas isso não era aprovado na Casa dos Estudantes, e não é apropriado sorrir sem razão. Não gostavam muito deles porque eles pegavam pedaços de carvão e desenhavam nas paredes, e havia desenhos que nos faziam rir. Mas apenas os nossos irmãos da Casa dos Artistas têm permissão para desenhar. Então Internacional 4-8818 foram enviados para a Casa dos Varredores de Ruas, assim como nós.

Internacional 4-8818 e eu somos amigos. É uma coisa ruim de se dizer, pois é uma transgressão, a grande Transgressão de Preferência, amar qualquer um entre os homens mais do que aos outros, já que todos devem a todos e todos são amigos. Então eu e Internacional 4-8818 e eu nunca falamos sobre isso. Mas nós sabemos. Sabemos, quando nos olhamos olhos nos olhos. E quando olhamos assim, sem nenhuma palavra, sabemos coisas também, coisas estranhas para as quais não há palavras, e essas coisas nos assustam.

Então naquele dia da primavera antes desta última, União 5-3992 tiveram convulsões nas fronteiras da Cidade, perto do Teatro Municipal. E nós os deixamos deitado na sombra da tenda do teatro e fomos terminar nosso trabalho com 4-8818. Nós fomos juntos para o grande barranco atrás do Teatro. Não havia nada ali, exceto árvores e um matagal. Além do barranco há uma planície, e além da planície há a Floresta Inexploram, sobre a qual os homens não devem pensar.

Coletávamos os papéis e trapos que o vento soprou do Teatro, quando vimos uma barra de ferro no mato. Era velha e estava enferrujada pela chuva. Tentamos puxá-la com toda a nossa força, mas não conseguimos movê-la. Então chamamos Internacional 4-8818, e juntos raspamos a terra ao redor da barra. De súbito, a terra caiu e vimos uma grade de ferro sobre um buraco.

Internacional 4-8818 deram um passo para trás. Mas nós cedemos e puxamos a grade. E então vimos aros de ferro como degraus levando a uma escuridão sem fim.

Vamos descer”, dissemos a Internacional 4-8818.

É proibido”, eles responderam.

Nós dissemos: “O Conselho não sabe que esse buraco existe, então não pode ser proibido.”

E eles responderam: “Como o Conselho não sabe sobre esse buraco, então não há lei que permita entrar nele. E tudo que não é permitido por lei é proibido.”

Mas nós dissemos: “Nós vamos assim mesmo.”

Eles estavam assustados, mas ficaram ali e nos deixaram ir.

Nos penduramos nos aros de ferro com nossas mãos e nossos pés. Não víamos nada abaixo de nós. E acima de nós o buraco mostrava o céu cada vez menor e menor, até que ele ficou do tamanho de um botão. Ainda assim continuamos. Então nossos pés tocaram o chão. Esfregamos nossos olhos, pois não conseguíamos ver. Então nossos olhos se acostumaram com a escuridão, embora não pudéssemos acreditar no que víamos.

Nenhum homem que conhecemos poderia ter construído esse lugar, nem os homens conhecidos pelos irmãos que viveram antes de nós, porém isso certamente foi construído por homens. Era um grande túnel. Suas paredes eram sólidas e lisas ao toque; parecia pedra, mas não era pedra. No chão havia estreitas faixas de ferro, mas não era ferro; era liso e frio como vidro. Ajoelhamo-nos, e rastejamos para frente, com nossa mão agarrando a faixa de ferro para ver até onde nos levaria. Mas havia uma noite ininterrupta adiante. Somente as faixas de ferro brilhavam lá, retas e brancas, pedindo que nós a seguíssemos. Mas não conseguiamos seguir, pois estávamos perdendo a luz atrás de nós. Então rastejamos de volta, ainda com as mãos na faixa de ferro. E nosso coração batia nas pontas dos nossos dedos, sem razão. Então nós percebemos.

Percebemos de repente que esse lugar era dos Tempos Imencionáveis. Então era verdade, e aqueles Tempos existiram, e todas as maravilhas daqueles Tempos. Centenas de centenas de anos atrás os homens sabiam de segredos que se perderam. Então pensamos: “Este é um lugar imundo. Estão condenados todos aqueles que tocam as coisas dos Tempos Imencionáveis.”  


Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s